LUÍSA SERÔDIO

LUÍSA SERÔDIO describes herself succinctly as a "decorator, restorer, and collector of objects." Her work begins with the collection of objects and pieces of sets that she has yet to assemble. She lives in Montemor-o-Novo, where she materializes beings, freeing them from the objects that imprison them and returning them to the world.


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How would you describe your practice? Assemblies, without a doubt. Or sculptures? Or 3D collages (hahaha)? Buildings? Let's say I discover beings, free creatures trapped in objects. I materialize emotions, the grotesque, the rogue, joy, curiosity, astonishment, poetry, and the human, in short. They are anachronistic characters who have inhabited us since we were human, that is, survivors of ancient times.

How do you define your work process? I come from the restoration and decoration industry. I like to accumulate objects and possibilities. Trash doesn't exist; everything is in a state of flux and transformation. I start with any object (that I find beautiful, such as a rusty can or an alabaster cup) and wait for it to speak to me. I'm patient! I listen and wait. I look around, leave the scene, and come back unexpectedly (to catch him red-handed?). And I start again. Suddenly, the being appears to me. It's an epiphany! Sometimes I feel angry, but then we reorganize and reassemble into new forms, and we make peace.

What references appear/are reflected over time in your pieces?  Anthropology, ethnography, popular, folkloric, tribal art. Popular bestiaries, puppets, fantastic tales, carnivals, clowns, demons, the ornaments of Gothic cathedrals, Bosch, Goya, etc. Oh, and the kitsch! Raw art, contemporary dance, the new circus.

What is the most unusual object that gave rise to a piece? Everything seems unusual, yet at the same time, nothing feels out of the ordinary. Beings inhabit all objects. Just let them leave. Anything will do, from a sheep's skull to a metronome. I'm always amazed at what comes up.

Finally, what are you currently working on? The director of the Montemor-o-Novo Puppet Festival invited me to occupy the foyer of the Curvo Semedo Theater in May. The festival's theme reflects the current global situation we face. I will lead a joyful uprising against all forms of repression and intolerance because joy does not surrender. The parade is called "They Shall Not Pass!"

 
 
 
 

LUÍSA SERÔDIO descreve-se muito resumidamente como “Decoradora, restauradora, respigadora de objectos”. O seu trabalho parte da acumulação de objetos, de peças de conjuntos que ainda irá juntar. Vive em Montemor-o-Novo, onde materializa seres, libertando-os dos objetos que os prendem, e devolvendo-os ao mundo.


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Como descreverias a tua prática?  Assemblagens, sem dúvida. Ou esculturas? Ou colagens 3D (ahahah)? Construções? Digamos que descubro seres, liberto criaturas presas em objetos. Materializo emoções, o grotesco, o pícaro, a alegria, a curiosidade, o espanto, a poesia, o humano enfim. São personagens anacrónicas, que nos povoam desde que somos gente, ou seja, sobreviventes de tempos antigos.

Como caracterizas o teu processo de trabalho? Venho do restauro, da decoração. Gosto de acumular objetos e possibilidades. Lixo não existe, tudo é um devir. Parto de um objeto qualquer (que eu ache bonito, pode ser uma lata ferrugenta ou uma taça de alabastro) e espero que ele fale comigo. Sou paciente! Escuto e espero. Olho em volta, saio de cena, volto inesperadamente (para o apanhar em flagrante?). E recomeço. De repente o ser está ali, a olhar para mim. É uma epifania! Mas às vezes zango-me. Então eles reorganizam-se e refazem-se (reassemblam-se) em novas formas. E fazemos as pazes.

Quais as referências que vão aparecendo/reflectindo ao longo dos tempos nas tuas peças? Antropologia, etnografia – arte popular, folclórica, tribal. Os bestiários populares, as marionetas, os contos fantásticos, os carnavais, palhaços, demónios, os ornamentos das catedrais góticas, Bosch, Goya, etc. ah e o kitsch! A arte bruta, a dança contemporânea, o novo circo.

Qual o objeto mais inusitado que deu origem a uma peça?  Tudo é inusitado e nada é inusitado. Os seres habitam todos os objetos. É só deixar que saiam. Qualquer coisa serve, desde uma caveira de ovelha a um metrónomo. Fico sempre espantada com o que surge.

Por último, em que estás a trabalhar atualmente? O diretor do Festival de Marionetas de Montemor-o-Novo convidou-me para ocupar o foyer do teatro Curvo Semedo em Maio. O festival tem um tema que tem a ver com o momento que estamos a viver a nível mundial. Vou apresentar um "desfile" ou levantamento popular contra todas as formas de repressão e intolerância, usando a alegria como resistência, porque a alegria não se rende. O desfile chama-se "Não Passarão!".

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